quinta-feira, 13 de junho de 2013
O sociólogo Herbert de Souza completaria 70 anos no dia 3 de novembro. Ele contava que, por culpa de um tio que entendia de cartório, mas não entendia de alemão – e o registrou como Hebert, assim mesmo, sem a letra "r", –, tinha ficado errado desde o nascimento. Herbert de Souza também dizia que o governo não é fundamental. Não se filiou a nenhum partido e tinha medo de que o Partido dos Trabalhadores seguisse um rumo totalitário. Certa vez, convocou os presidentes das maiores estatais brasileiras para uma reunião e se admirou quando todos apareceram. Betinho era assim: tinha opinião, mas, acima de tudo, tinha ação.
Quem conta o caso é o presidente do Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida (Coep), André Spitz. “Foi um ato de ousadia. Convidamos vários presidentes, e não é que eles vieram?”, lembra ele, ressaltando que o arrojo de propor a reunião foi o primeiro passo para a criação do Coep. Antes disso, Betinho já tinha, ao lado do companheiro Carlos Afonso, hoje diretor de Planejamento e Estratégias da Rits, fundado o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), em 1981.
Ao longo da vida, Betinho foi obrigado a conviver com limitações impostas pela saúde frágil. Hoje, 70 anos depois de seu nascimento e oito anos após sua morte, brasileiros e brasileiras se lembram do homem que os ajudou a apreender, recém-aportados no seu processo de redemocratização, o significado da palavra cidadania. “Ele faz uma falta danada. Era dessas pessoas, os Gandhis da vida, que se apresentam de tempos em tempos e mudam os rumos de uma comunidade, de uma nação, ou mesmo da humanidade”, diz Carlos Afonso.
Betinho não conseguia dormir com um sol daqueles: milhares de crianças trabalhando em condições de escravidão, trabalhadores sobrevivendo com suas famílias num quadro de miséria e de fome, a exploração da mulher, a discriminação do negro. Dizia que cidadania é a prática de quem está ajudando a construir os valores democráticos. Baseado nesses princípios, sentenciou certa vez: “Entre o presidente e o cidadão, fico com o cidadão”. Seu legado cidadão é, todavia, muito maior do que a mera noção de cidadania.
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